Um blues, um samba, minha tristeza (parte 2)

(continuando…)

Sigo rumo ao mais completo e absurdo abandono… como se escreve um caminho sem volta, uma visão em desfoque terminal? Aquela última gota, debruçada sobre a borda do copo depois da tua boca, a gota que não pinga, que apenas escorre preguiçosa, desviando poeiras e digitais que lhe acometem… com que notas se a trilha? Que acorde lhe salvará? Que falsete em desespero anunciará seu fim?

Não, amigo, samba é pra moribundo, para os eternos irrecuperáveis; embora, nessa mesma eternidade, tampouco sejam derrotáveis. Eis que em 1978, rumo ao mais completo e absurdo abandono, a salvação veio a tamborim.

Eram tempos difíceis, embora estivesse prestes a completar apenas meu primeiro ano de vida. Naquela época, mais precisamente no dia 27 de julho, Paulinho da Viola sentiu-se esquisito, “difusamente vulnerável” - tentaria explicar mais tarde em sua autobiografia intitulada “Um Punhado de Desejos” (Bertrand Brasil, 2001) - ao perceber, na mão esquerda de Júlio Gogó, famoso luthier de Madureira, uma tatuagem bastante incomum. Seis notas numa partitura de sol. Queria ver mais de perto.

“Como é que é isso, Gogó?”, perguntou Paulinho puxando-lhe a mão, e no toque daquele pulso firme de conexões musculares e rítmicas, pele negra, seca, gasta em farpas de jacarandá e ceroto, percebeu, na sobriedade do meio-dia, as voláteis distorções a que o desejo submete nossas ereções. Alheio ao enrijecimento, Júlio respondeu: “aquela música porra, puá-rua-rá, puá-rua-rára… sabe qual é?”.

“Toma aqui, teu cavaquinho tá pronto. Já afinei”. Paulinho foi embora pra casa naquele dia com a melodia grudada na cabeça, de origem desconhecida, embora mais preocupado com aquela ereção. Pois ele queria aquela pele; fazer suas, as cicatrizes; seu, o cheiro abafado de suor em madeira; suas, aquela seis notas em partitura de sol. Desejos não pedem licença, inspiram irremediavelmente.

E foi assim que Paulinho da Viola compôs, sem querer, sua versão de “West End Blues” (não creditada por ser sem querer), 50 anos depois de Louis Armstrong, exercício e exorcismo de desejo sob o título de “Sofrer”, lançada no disco auto-intitulado de 1978, em que homenageia o ofício de luthier.

1978.

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