Um pouco de história da música, diretamente de nossos arquivos literários…
Essa madrugada que teima minha testa tem nesgas difusas de luz, sempre alhures, meus sinais de fumaça de que qualquer origem ou destino estará sempre noutras esquinas. Essa madrugada que teima minha testa é o obtuso e intransponível meio do caminho de quem não sabe pra onde vai…
Três vodkas não são tão simples quanto antigamente. Antes, também as manhãs descomplicavam, amanheciam como haviam prometido, e ainda assim, o tempo parecia não passar; hoje o tempo corre de peito cheio… patas, pulsos, vestígios deitados em areia e enxaqueca… mas não amanheço.
Essa madrugada que teima minha testa, entretanto, não é de hoje. São três parábolas curvando espaço-tempo no que acredito ser a espiral fundamental de minha mais completa tristeza. Um blues, um samba, uma buceta.
Bem, nossa história começa em 1928, quando um camarada chamado Louis Armstrong, a caminho do estúdio em que se encontraria com o parceiro Earl Hines, se esqueceu de colocar no bolso oculto situado no lado canhoto de seu paletó, o já tão amassado bilhetinho que uma fogosa amante de alguns anos atrás havia lhe dado antes de soltar uma gargalhada que a levou a uma crise fatal de asma. O pequeno recorte trazia apenas, em manuscrito um tanto débil, “uá-dua-dá, uá-dua-dáda”.
O fato é que a aparente dislexia tornara-se o amuleto de Armstrong, tanto para gravações quanto para shows. Ao chegar no estúdio, foi logo falando que a sessão teria que ser adiada por conta do ocorrido, pois ele não tocaria sem o amuleto. Foi quando Hines, meio puto com toda essa história, perguntou pra ele o que havia escrito no tal bilhete. Ao escutar o que pareciam ser scats, Hines foi direto ao piano e dedilhou algumas notas. “Que é isso?”, perguntou Armstrong. “Não lembra? É West End Blues, do Williams! É o que está escrito no bilhete, Louee”.
“Filho da puta!”
E fez-se, infelizmente, todo o sentido na cabeça de Armstrong: a risada de sarcasmo da amante no pé da morte, a melodia escrita em códigos fonéticos daquele maldito bilhete… ele carregava uma confissão, um chifre amassado no bolso… sim, ela o estava traindo. De tempo fechado, a madrugada abriu seu botão e aquele pólen de tristes urticárias, mais quem sabe quantos bourbons ardendo no céu da boca, resultou não no registro do ódio, mas numa das mais belas gravações da tristeza, exercício e exorcismo dela. Um homem traído, sua voz, seu trompete. Naquela noite, a dupla gravou a versão definitiva de “West End Blues”.
1928.