Haveria repouso? Pra onde as notas vão quando lhes recuso o eco? Quando meus poros, entupidos de matéria surda, não as recolhe, as abafa, poeiras de sustenidos e bemóis entre pêlos e gorduras que secam. Pra onde iria tua voz, se não a engolisse, se não a recolhesse em cada tom irônico, vibratos incertos, escapadelas agudas e sing-alongs em minhas papilas… senão poros para teu sossego?
“Tuas pernas, abre-as. Teus lábios, afasta-os. Teu cheiro, teu gosto, salivo-os essa última vez, Orrin”. Com essa bela overture, o pianista Bill Evans, sempre muito galante, começou a chupar sua garota, Orrin Keepnews, produtora musical de seus primeiros discos pela gravadora Riverside, de Nova Iorque. Orrin ofegava, e entre suspiros estranhou aquele “última vez”, embora não fosse o suficiente para iniciar uma discussão naquele momento.
Sim, seria a última vez que os amantes se encontrariam. Evans estava a caminho da Columbia Records, Meca jazzística de então, mas esse não era o problema. Evans iria usar piano elétrico, entrar na moda, muito a contra-gosto de Keepnews, mas esse também não era o problema. Evans iria chupar muitas garotas depois que entrasse na moda, mas também não seria esse o motivo da separação. O problema não estava na música, no amor, ou no sexo… a parada era a palavra, a obsessão maior de Evans.
O problema todo estava no fato aparentemente irrelevante de que Orrin Keepnews, o nome, possuía somente uma letra “o”. Tivesse a produtora trocado um daqueles três “e”s por mais um “o”zinho, talvez seu sangue ainda circulasse suas veias, e não a base espessa daquele vinil de 71, de BPM a RPM, de musa à própria obra.
É que mesmo nos momentos mais demandantes, Bill se avoava longe pra anagramas. E foi deitando a melodia de sua próxima composição, usando nuanças de mucosa e atrito naquele calor insuportável do verão de 71 em New York, que o músico decidira homenagear a produtora no título da obra. Um anagrama de despedida.
Depois de muitas tentativas e combinações, Orrin Keepnews gozou pela última vez, absorvida por reticências, morta para carne. Seus músculos, mucos, miúdos, sua matéria toda, releva-as, repensa-as. Orrin tornada assobio. Dali pra frente, “Re: Person I Knew”. “Knew”, assim mesmo, no passado, foi tudo o que Evans pôde arranjar.
Exercício e exorcismo de obsessão.